
Parece
que foi ontem
Cepasp 15 anos de luta
Por
Raimundo Gomes da Cruz Neto e Rogério Almeida
O
Começo de tudo
Faz 15 anos que Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria
Sindical e Popular Cepasp - surgiu, resultado da união de vários
militantes dos movimentos populares da região sul do Pará,
Norte do Brasil, em plena Amazônia, que possuem em comum o ideário
de construção de uma sociedade ancorada nos princípios
socialistas.
O
Cepasp é uma entidade sem fins lucrativos, atua junto aos movimentos
populares e sindicais das regiões sul e sudeste do Pará,
reconhecidas pela concentração de terra, implantação
de grandes projetos (Programa Grande Carajás), violência
contra os trabalhadores (as) rurais e mobilização e articulação
de várias entidades sindicais e ambientalistas.
Ao
longo de sua história o Cepasp tem incentivado a organização
de entidades, motivado seminários e organização
de banco de dados sobre assuntos de interesse dos movimentos populares
da região. Colabora, participa e produz material de apoio, cartilha,
jornais, vídeos e intercâmbios regionais, nacionais e internacionais.
Tudo com o objetivo de instigar nos participantes das organizações
populares uma consciência crítica, voltada para a construção
de uma sociedade menos desigual, sintonizada na conquista da terra,
garantia dos direitos humanos, numa lógica ecológica de
desenvolvimento sustentável, onde o ser humano possa utilizar
a natureza sem destruí-la.
O
Cepasp através de uma equipe de técnicos desenvolve junto
às comunidades de pequenos produtores, experiências de
aplicação de tecnologias alternativas, na busca de uma
agricultura que possibilite geração de renda e educação
ambiental.
A
equipe do Cepasp avalia que a grande contribuição tem
se dado no campo político das lutas populares do campo e da cidade,
funcionando como articulador entre as variadas entidades da região.
Ao longo de sua jornada a entidade tornou-se referência em acumulo
de dados e experiências nas questões de luta pela terra
e ambiental, onde busca conhecer, entender e propor políticas
públicas, além de colaborar para a formação
de quadros via assessoria às entidades na busca de um Brasil
verdadeiramente democrático. Este
breve resgate da história do Cepasp tem a intenção
de narrar um pouco da luta do Cepasp, citar o conjunto de atores envolvidos
em sua trajetória, suas bandeiras, acertos, fracassos, desafios
e perspectivas. Boa viagem!
Entre
1984 e 1985
O Cepasp nasceu no fim de 1984 para 1985, início da redemocratização
do país, no redemoinho de implantação de grandes
projetos de colonização e exploração da
Amazônia - Programa Grande Carajás (PGC) , exploração
de ferro, construção da Estrada de Ferro de Carajás,
conflitos na luta pela terra, garimpo de Serra Pelada, construção
da Usina Hidroelétrica de Tucuruí, que resultou no crescimento
demográfico de 3 para 11 habitantes por quilômetro quadrado.
Na
época Tucuruí, Jacundá, Itupiranga, Marabá,
São João do Araguaia e Rondo do Pará eram os seis
municípios que constituíam o sudeste do Pará, o
Estado era governado por Jader Barbalho (PMDB). Na ocasião o
norte da luta sindical era a tomada dos sindicatos rurais por lideranças
consideradas autênticas. Na época os STR´s eram coordenados
por pessoas atreladas aos latifundiários, direção
de grandes empresas que se implantavam na região e políticos
tradicionais. Os trabalhadores rurais direcionavam a luta, na cidade
a categoria dos professores iniciava sua organização juntamente
com a associação de moradores.
A marca da luta do Cepasp tem sido a luta por uma sociedade menos cruel
na região, ao longo dos anos marcada pela violência contra
o trabalhador rural, inoperância do poder constituído e
impunidade. O poder constituído além de contar com o apoio
de órgãos governamentais como policia, Emater, Getat,
Iterpa e Poder Judiciário, sempre fez uso de milícias
particulares para eliminar as lideranças sindicais, que contam
apenas com o apoio de demais entidades de apoio ao movimento popular
da região e setores da Igreja Católica.
A
desigualdade de forças tem marcado a luta, luta que em várias
ocasiões tem um fim trágico, como as chacinas de Castanhal
e Ubá em São João do Araguaia, Surubim e Princesa
em Marabá entre os anos de 1985 e 1986, que terminou com a morte
de treze trabalhadores rurais; Eldorado do Carajás em 1996, 19
trabalhadores rurais foram assassinados.
MEIO
AMBIENTE
Entre os vários desafios da região, a questão ambiental
tem sido um dos maiores. No início da nossa peleja a Construção
da Usina de Tucuruí, formação do lago de Tucuruí
sem a retirada de árvores e animais da área que foi inundada,
uso abusivo de agrotóxicos ao longo da linha de energia da Eletronorte
e ausência de estudo prévia sobre os impactos sociais e
ambientais se constituiu no maior embate.
A
preocupação com a ocupação da Amazônia
e o meio ambiente sempre fizeram parte do trabalho do Cepasp. Em 1988
a entidade move um inquérito civil público junto a Procuradoria
Geral da República, solicitando que sejam apurados os danos ambientais
provocados pela implantação das usinas siderúrgicas
na região, um dos tentáculos do PGC.
Entidades
nacionais engrossaram o coro dos descontentes junto ao Cepasp, entre
elas: ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Inesc,
Fase, CUT (Central Única dos Trabalhadores), CTI, SDDH (Sociedade
de Defesa dos Direitos Humanos), MNDDH (Movimento Nacional de Defesa
dos Direitos Humanos). O parecer técnico teve a assinatura dos
cientistas Philip Fearside do INPA, Orlando Valverde (CNDDA) e Alceo
Magrini.
Encontros
e desencontros
Além de participar de vários encontros sobre meio ambiente
e fóruns regionais, nacionais e internacionais, o Cepasp motivou
ao longo de seus 15 anos de vida quatro encontros para discutir a temática:
Encontro Marabaense em Defesa do Maio Ambiente (1988, 1989, 1990 e 1991),
sempre em junho, mês em que se comemora o Dia Internacional do
Meio Ambiente.
Como
ação concreta o Cepasp colaborou e participou de manifestações
públicas contra o fechamento da Barragem de Tucuruí, em
Tucuruí, Cametá e Marabá (Pará) ainda em
1984. Em oposição à implantação de
usinas siderúrgicas esteve presente em ações em
Marabá, Tucuruí e Belém (Pará); Açailândia
e São Luís (MA) e Alemanha.
Temas
dos encontros
Os encontros sobre meio ambiente debateram entre outras questões,
o modelo de ocupação da Amazônia, que sempre obedeceu
uma lógica autoritária, numa engenharia que valida somente
a matemática do lucro, que sempre desconsiderou as populações
nativas em sua relação com o meio ambiente, seus valores,
crenças e modos de vida. Problemáticas
como a implantação de projetos agropecuários, exploração
madeireira, garimpo, barragens, projetos siderúrgicos, concentração
fundiária esteve na pauta. Trabalhadores rurais, urbanos, estudantes,
professores, populações indígenas eram a platéia,
atores dos encontros. Encontros que aconteceram com o apoio de entidades
como a UFPA, DNPM. APPEA,IDESP, SOPREN, FETAGRI, NAEA, ACAP, SAGRI,
SDDH a nível de Pará; ABA (RJ); INPA (AM), SDDH (MA);
STR (São João do Araguaia), CAT, CPT, AMBCN, GEMA, FATA,
Casa da Cultura, MEB, Sintepp de Marabá.
Educação
Ambiental
As ações da Cepasp no sentido de motivar a importância
do meio ambiente deu-se também junto às escolas de Marabá
até 1992. A atividade aconteceu através de professores
alinhados com a proposta de trabalho do Cepasp nas escolas municipais
da Liberdade, Salomé Carvalho e profº Gaspar Viana, através
de organização de grupos ecológicos, trabalhos
escolares. O
MEEM (Movimento Ecológico Estudantil de Marabá), foi cria
desta iniciativa de levar o debate sobre ambiente para as escolas. A
partir daí o assunto meio ambiente ganha maior inserção
na região, principalmente junto aos trabalhadores(as) rurais,
que tem demonstrado mais atenção na temática, até
por ser o ator mais atingido com a implantação de grandes
projetos na região.
Um
passo a frente e não se está mais no mesmo lugar
Em 1987, com pouco mais de três anos de estrada, O Cepasp acumulava
experiência e documentação sobre a região
sudeste do Pará. Em 1987, um ano antes da Assembléia Nacional
Constituinte, a entidade começava a semear propostas para o desenvolvimento
do sudeste do Pará, pautando a exploração agrícola,
produção familiar e o extrativismo como alternativas aos
pequenos agricultores, sistema conhecido como agroextrativista. O
trabalho de luta pela conquista da terra passa a ser conjugado com a
construção de alternativas produtivas pelos pequenos agricultores,
considerando o uso racional dos recursos naturais da floresta como baliza.
Uma
vez mais a entidade questiona a forma de colonização imposta
pelo governo federal à região, através do Incra,
que loteava a região em pequenas e grandes propriedades; o primeiro
para agricultores, o segundo legado para os latifundiários, atitude
que precipitou na construção do latifúndio improdutivo,
destruição do polígono dos castanhais em detrimento
de pasto, e de quebra configurou um quadro de extrema violação
aos direitos humanos, traduzido no seqüestro, prisão, tortura
e assassinato de lideranças sindicais, advogados, religiosos
e técnicos de entidades de apoio.
"Para
todo e qualquer assentamento a ser realizado na região deve preceder
um estudo sobre potencial econômico e ambiental da área".
Em 1988 era a proposta defendida pelo Cepasp para região do polígono
dos castanhais (Marabá, Itupiranga, São João do
Araguaia, São Geraldo do Araguaia). Feito isto, definiríamos
o número de famílias a serem assentadas e a forma de exploração,
superando com tal estratégia o modelo tradicional imposto pelo
Incra. Como
o olhar do movimento sindical da época estava centrado na simples
conquista da terra, sem vislumbrar passos para o futuro, e a intervenção
de órgãos públicos, a proposta não foi considerada.
COMUNIDADES
DE ATUAÇÃO
Araras: A atividade do Cepasp na comunidade de Araras, distante 40km
de Marabá, data de 1987, início do assentamento. Em Araras,
a entidade implementou atividade de desenvolvimento que contemplava
ao mesmo tempo as relações sociais na comunidade com sistemas
de produção agroextrativista (cupuaçu, castanha,
açaí e pupunha) beneficiamento e comercialização.
A
Caixa Agrícola de Araras, articulação do Grupo
de Mulheres e fortalecimento do Sindicato dos Trabalhadores de São
João do Araguaia são resultados desse trabalho. A atividade
da entidade em Araras tem hoje ressonância em todo o sudeste do
Pará, estado e região Norte e Nordeste do país.
Em araras é freqüente a visita de trabalhadores rurais,
técnicos e pesquisadores da região, do estado, estados
vizinhos e do exterior, a fim de conhecer a experiência da comunidade
em desenvolvimento sustentável.
janeiro
de 1987: A equipe de reportagem do Globo Rural da Rede Globo de Televisão
fez matéria sobre a comunidade, na matéria foi mostrado
o sistema de produção desenvolvido, a organização
da comunidade e o processo de beneficiamento de frutas.
Avaliando
que o trabalho foi ancorado no bom senso e teve resposta favorável,
estendemos a experiência de Araras a outras comunidades. Em Nova
Ipixuna oportunizou a criação do projeto de assentamento
agroextrativista, atualmente a comunidade se encontra organizada em
torno do Correntão, que congrega uma cooperativa de agricultores
que trabalha com a produção de derivados de frutas (polpas
de Cupuaçu e Açaí).
A
articulação
Junto ao movimento sindical da região sudeste do Pará,
tem se dado vezes num trabalho mais próximo com entidades de
alguns municípios, em outros casos de forma mais pontual através
de cursos, encontros e reuniões. Nos
municípios em que o Cepasp esteve mais próximo, colaborou
desde a organização, participação em atividades
de planejamento do sindicato, elaboração de plano de ação
e participação na execução de estratégias.
STR
de Tucuruí
Junto ao STR de Tucuruí acompanhou a caminhada desde 1985, principalmente
em negociações frente a Eletronorte no município
de Tucuruí e Brasília. Naquela época organizou
estudo sobre a problemática causada pela formação
do lago, elaborou planilha do prejuízo causado aos agricultores,
o material serviu como apoio nas discussões junto a Eletronorte.
Ainda em Tucuruí apoiou o STR em processos eleitorais através
da realização dos cursos de formação sobre
política sindical e sistemas de produção.
STR´s
de Jacundá e Itupiranga
A história agora se passa nos STR´s de Jacundá e
Itupiranga, que faziam parte do conjunto de entidades que debatiam com
a Eletronorte. Entre 1985 e 1986 o Cepasp atuou no sentido de garantir
a direção dos sindicatos nas mãos de pessoas realmente
alinhadas com os anseios dos representados.
Itupiranga:
A entidade contribuiu STR´s de Jacundá e Itupiranga até
1992 em atividades de apoio à organização dos trabalhadores
rurais. A partir de 1993 o curso da história a coloca a entidade
em outras trincheiras.
Jacundá: As atividades datam desde 1987 num trabalho de ampla
articulação entre todas as organizações
da região.
Eldorado
do Carajás e Parauapebas
Nesses municípios, o Cepasp trabalhou em 1992 e 1988, respectivamente,
junto aos STR´s na organização e desenvolvimento
de programações. Em Parauapebas tivemos várias
vezes contribuindo com o STR em negociações junto a CVRD
e na busca de soluções em questões fundiárias
em debates com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) e o Instituto de Terras do Pará (Iterpa),
na defesa de agricultores prejudicados pelos interesses da CVRD.
Junto
ao STR de Eldorado trabalhamos desde sua fundação em 1992
na organização da categoria, da produção,
e em reuniões para solucionar os conflitos frente aos órgãos
públicos. Entre as principais lutas de Eldorado o Cepasp esteve
presente nos conflitos fundiários nas comunidades de Abaeté
(1987 e 1991), Água Fria e Pedra Furada (desde 1986), rearticulação
da diretoria do STR e fortalecimento das delegacias sindicais após
o assassinato de seu presidente, Arnaldo Delcídio em 02 de maio
de 1993, e organização da Caixa Agrícola dos Pequenos
Produtores de Eldorado do Carajás em 1994.
STR
de Marabá
O Cepasp prestou assessoria desde a sua a fundação, que
antecede a fundação formal do Cepasp. Em 1985 apoiou o
movimento de oposição à diretoria, que foi constituído
pelo fato da sua diretoria ter se afastado dos interesses de seus representados.
Em sua gestão de 1991/1994, a diretoria passou a assumir uma
ligação com latifundiários da região e com
a oligarquia dos castanhais. Em 1994 a oposição consegue
a diretoria do STR. Na
cidade, o Cepasp contribuiu principalmente junto ao Sindicato dos Professores
do município de Marabá, onde a entidade participou das
primeiras reuniões de articulação do sindicato,
através de cursos de formação política.
A
contribuição da entidade em cada sindicato se reflete
no papel de articulador político dentro da região, que
começa a tomar corpo com a instalação da CUT-Regional
em 1988, encontro dos trabalhadores rurais em abril de 1990 em Parauapebas,
que teve a participação de 11 municípios e produção
de documentos encaminhados para a Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), diversos ministérios
e a rearticulação da CUT-Sudeste em 1991, que reuniu a
maioria dos sindicatos de trabalhadores da região em congresso.
A
LIÇÃO PASSADA EM FRENTE
Material pedagógico: Entre as atividades que o Cepasp desenvolve
está levantamento de dados, produção de material
de apoio, estudo sobre as principais problemáticas da região
e publicação de seu informativo que já dura 10
anos. Ao longo de sua breve jornada a entidade constituiu um acervo
de documentos e produziu vários materiais, entre eles destacamos:
-
Material sobre o Remanejamento dos Atingidos pela Barragem de Tucuruí.
- O uso de agrotóxico ao longo da Linha de Transmissão
de Energia Área do Lago.
- Expansão da Cidade de Marabá.
- Garimpo de Serra Pelada.
- Questão Fundiária no Sudeste no Pará.
- Os impactos sociais do Projeto Grande Carajás (parceria com
a SDDH).
- Implantação de siderúrgicas em Marabá.
- Levantamento sócio-econômico em C
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omunidades Rurais.
Este
acervo de material somado ao arquivo que o Cepasp, vem construindo ao
longo de sua trajetória vem contribuindo tanto para o público
que a entidade trabalha, como para estudantes de 1º, 2º e
3 º graus. O acervo também tem sido utilizado por pesquisadores
para produção de teses de mestrado e doutorado, bem como
para vídeos, exemplo do material produzido pela doutora Edna
Castro, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da
Universidade Federal do Pará (Ufpa).
ASSISTÊNCIA TÉCNICA
1998: A entidade vem prestando assessoria técnica mais sistemática
aos trabalhadores rurais da região, em convênio celebrado
com o Incra, através do Projeto Lumiar, uma reivindicação
antiga, conquistada ao longo de vários Gritos da Terra Brasil
realizados pelos trabalhadores rurais do país.
Atualmente
o Cepasp tem um quadro de 17 técnicos, entre técnicos
agrícolas, agrônomos, assistentes sociais, administradores,
geógrafos que atuam nos Projetos de Assentamento Gameleira, São
Francisco, Paulo Fontelles e Veneza, em articulação próxima
com a Federação dos Trabalhadores Rurais ( Fetagri - regional
sudeste), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Comissão
Pastoral da Terra (CPT) e demais entidades representativas dentro dos
Projetos de Assentamento, entre eles sindicatos e associações.
CEPASP
EM REDE
Fóruns de participação: Os 15 anos de atividade
do Cepasp o credenciaram para participar de vários fóruns
que se constituíram na região Amazônica, atualmente
a entidade faz parte do Fórum Carajás, conjunto de vários
atores do Pará, Maranhão e Alemanha que estudam, discutem
e propõem soluções sobre problemas gerados a partir
da implantação do Programa Grande Carajás.
Fórum
Carajás: Surgiu numa aproximação do Grupo de Trabalho
Amazônico (regionais de Carajás e Babaçu), e várias
entidades civis do Pará e Maranhão num debate sobre os
impactos ambientais e sociais resultantes da implantação
do Programa Grande Carajás (PGC). Seminário Consulta foi
a primeira fase que durou até 1995, pesquisas e estudos e alguns
encontros resultaram na realização da Mesa Redonda Internacional,
que decidiu pela criação do Fórum Carajás.
O
Fórum Carajás é hoje uma rede de 120 entidades
do Pará e Maranhão, constitui-se num canal de diálogo
com organismos públicos e privados, instituições
financeiras e parlamentares, na busca da superação do
modelo de desenvolvimento implantado na região de Carajás.
O trabalho acontece através de realização de pesquisa,
publicação de material didático (cartilhas, mapas,
fotografia, etc) seminários, encontros e elaboração
de propostas de políticas públicas junto às populações
afetadas pelo PGC (índios, ribeirinhos, metalúrgicos,
trabalhadores rurais, quebradeiras de coco). O Cepasp funciona como
escritório regional em Marabá, na condição
de membro da diretoria executiva.
Grupo
de Trabalho Amazônico: O Cepasp integra também o Grupo
de Trabalho Amazônico (GTA), uma rede com 355 entidades da Amazônia
Legal. Surgiu em 1992, congrega seringueiros, quebradeiras de côco
babaçu, entidades de assessoria, organizações não
governamentais, pescadores artesanais, extrativistas, pequenos agricultores
familiares, ribeirinhos entre outros para a promoção de
atividades de desenvolvimento sustentável e econômico e
de proteção da Floresta Amazônica.
O
GTA representa as entidades filiadas e incentiva a participação
e interesses da sociedade civil, tendo como prioridade comunidades de
base, numa atividade de desenvolvimento sustentável da Amazônia
Legal. Faz isso incentivando projetos de apoio à Participação
da Sociedade Civil no PPG-7,Programa de Apoio ao Desenvolvimento do
Extrativismo (Prodex), Programa de Ecoturismo para a Amazônia
Legal, Projeto de Promoção dos Produtos Florestais Não-
Madeireiros, Programa Amazônia Solidária e o Programa Demonstrativo
Tipo A.
O
GTA tem como parceiros o Programa das Nações Unidas para
o Desenvolvimento (PNUD), o Banco Mundial, a União Européia,
o Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e
da Amazônia Legal/Secretaria de Coordenação da Amazônia,
o Banco do Brasil, o Ministério do Trabalho (Fundo de Amparo
ao Trabalhador/FAT) e o Programa Comunidade Solidária. Na região
o Cepasp funciona como secretária executiva regional, na condição
de GTA-Carajás.
CEPASP,
MST, CPT E FETAGRI
A parceria sistemática data de 1996, motivada com o acirramento
da violência contra os trabalhadores rurais na luta de conquista
pela terra ao longo da história da região, notabilizada
nacional e internacionalmente pelo assassinato de trabalhadores rurais,
concentração de terra e implantação de grandes
projetos. Junto
aos movimentos o Cepasp tem atuado como entidade de apoio através
de levantamento de dados sobre concentração fundiária,
legislação sobre questão da terra, elaboração
de projetos, assessoria nas negociações junto aos órgãos
municipais, estaduais e federais envolvidos na questão.
A
entidade trabalha junto às organizações no debate
e montagem de estratégias em acampamentos em repartições
públicas quando estas não possuem a predisposição
em debater junto às lideranças a problemática do
trabalhador(a) rural, bem como em ocupações em terras
improdutivas e constituídas através de meios ilícitos
( fraude cartorial, omissão dos órgãos públicos
relacionados com a temática da grilagem da terra).
Nos
grandes acampamentos realizados pela Fetagri regional Sudeste e demais
entidades nos anos de 1997 e 1999, onde conseguiu aglutinar mais de
20 mil trabalhadores (as) rurais em frente a sede regional do Incra
de Marabá, o Cepasp funcionou como parceiro decisivo na organização,
mobilização e assessoria nas negociações
com o Incra regional, Instituto de Terras do Pará (Iterpa), e
o Ministério de Reforma Agrária, elaborando contra propostas
aos planos de governo para a reforma agrária.
O
Cepasp É FERA
CPT, Fetagri, SDDH, Fata, Lasat, CNS, FASE, Cocat: Constituem o FERA
(Fórum de Entidades pela Reforma Agrária), constituído
em 1997. Este Fórum se completa com a participação
dos sindicatos, associações e cooperativas de agricultores
familiares do sudeste do Pará.
O
Fera tem favorecido a mobilização dos trabalhadores rurais
da região na perspectiva de definir políticas públicas
para a produção familiar, junto ao Incra, governo do estado
e prefeituras municipais, considerando a possibilidade de definições
da política de desenvolvimento regional de interesse dos produtores
familiares.
A
ORGANIZAÇÃO DA MULHER E O CEPASP
Ao longo de sua história, o Cepasp sempre esteve atento às
diferentes frentes de luta e disposto a colaborar na organização
das categorias do campo e da cidade. No caso da organização
das mulheres contribui nos encontros e seminários ocorridos na
região desde 1989, ano que aconteceu o 1º Encontro de Mulheres
Sindicalistas do Sudeste do Pará, em Parauapebas, numa iniciativa
do STR de Parauapebas, com apoio do Cepasp, Movimento de Mulheres Campo
e Cidade e o Conselho Nacional dos Seringueiros. Entre as questões
levantadas nos encontros encontramos:
-
A preocupação do movimento com o meio ambiente.
- Organização, relações de gênero,
sexualidade e conquista da terra.
- Modelo de colonização da região amazônica.
- Defesa de direitos básicos como educação, saúde,
previdência.
Como
encaminhamentos foram citadas a necessidade de discussões específicas
nas localidades que participaram no encontro, tais como:
-
Campanha de filiação sindical.
- Melhora da organização da trabalhadora rural, a fim
de ela se tornasse um sujeito social mais participativo nas lutas dos
trabalhadores.
1990: O 2º Encontro e Mulheres é realizado em 1990, em Marabá.
O tema era "Terra, vida e liberdade". Após o encontro
foi eleita uma coordenação composta pelos municípios
presentes, entre eles: Itupiranga, Tucuruí, Marabá, Curionópolis
e São Domingos do Araguaia.
1992:
acontece o 3º Encontro de Mulheres do Sudeste do Pará, no
mesmo ano setores ligados ao movimento organizam uma feira de produtos
agroextrativistas (derivados de cupuaçu, castanha e côco
babaçu), e artesanais na Praça Duque de Caxias em Marabá.
1994:
foi realizado o 4º Encontro de Mulheres.
1999:
numa iniciativa da Secretaria da Mulher da Fetagri regional sudeste,
sob orientação da Fetagri Estadual, com apoio da Cese,
Fórum Carajás, MMCC, CPT e Cepasp acontece o 1º Encontro
sobre Gênero e Sindicalismo, que teve a participação
de mais de 80 pessoas, 70 por cento composto de mulheres.
BRAÇOS,
CORAÇÕES, ALMAS E MENTES
Ao longo de seus 15 anos de luta vários braços, corações,
almas e mentes colaboraram para construção do Cepasp.
Uns com grande paixão sem perder o senso de praticidade do trabalho,
outros com suas limitações. Aqui
segue uma homenagem aos que ousaram engrossar o coro dos descontentes
da ordem institucionalizada. Entre eles, encontramos administrador,
educador popular, técnico agrícola, técnico em
agropecuária, agrônomo, geógrafo, técnico
administrador, engenheiro florestal, motorista, jornalista, assistente
social:
Maria
da Conceição Martins dos Reis
Ilan Nascimento Gomes Serra
Júlia Maria Ferreira Furtado
Louredo Souza Lima
Ailce Margarida Negreiros Alves
Raimundo da Silva Azevedo
Jorge Luís Rodrigues Nery
Evandro Miguel Silva Torres
Albertina Sandra Moreira dos Reis
Maria de Jesus Ferreira da Silva
Gilberto Souza e Silva
Atualmente
o nosso time conta - vezes mal, vezes bem -, com:
CONTRIBUIÇÕES
E COLABORAÇÕES
Durante
a jornada de 1987 a 1997, o Cepasp contou com a confiança e colaboração
financeira de inúmeras entidades nacionais e internacionais,
entre elas:
CESE
(Coordenadoria Ecumênica de Serviço), Salvador/Bahia. A
Cese teve uma parceria em pequenos projetos desenvolvido na região.
WWF
(World Wildilipe Fund), EUA. Apoio projetos desenvolvidos junto
à comunidade de Araras em atividades de beneficiamento de frutos,
formação na área de gestão, gerenciamento
e planejamento.
ASW
(Aktionsgemeinschaft Solidarische Weet), Alemanha. Contribui em
atividades junto às comunidades rurais. Atualmente apóia
programa desenvolvido pelo Grupo de Mulheres de Araras, na produção
de derivados de frutos e na implantação da Casa do Cupuaçu.
The
Ford Fundation, Rio de Janeiro/RJ. Colaboração na
comunidade de Araras, no programa de comercialização direta
produtor/consumidor, acompanhando através de levantamentos, da
variação de preço da cesta básica, e na
formação das famílias de Araras.
Embaixada
do Canadá, Brasília/DF. Empenhou recursos na implantação
de unidades de beneficiamento de Castanha do Brasil, em comunidades
rurais, com iniciativas nos municípios de Marabá, Itupiranga,
São João do Araguaia, Ipixuna e Eldorado do Carajás.
Brot
Für Die Welt (Pão para o Mundo), Sturtgart, Alemanha.
Apoiou durante seis anos o programa Experiência Alternativa à
Produção Agrícola por Pequenos Produtores, desenvolvido
na região sudeste do Pará, com prioridade aos municípios
de Marabá, Itupiranga, Eldorado do Carajás, São
Domingos do Araguaia, São João do Araguaia e Parauapebas.
Christian
Aid, Oxfam, Inglaterra, com sede no Brasil (Recife/PE). O apoio
das entidades durou dez anos, se deu a partir de 1987, através
do programa de Assessoria aos Movimentos Sociais na Região de
Carajás, o que ajudou a inserção da entidade no
conjunto da sociedade urbana e rural da região de Carajás,
via Cepasp colaboraram com o Movimento de Mulheres do Sudeste do Pará.
Atualmente
o Cepasp sobrevive com recursos provenientes de convênio com o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(Incra), para assessoria técnica em áreas de assentamento.
É um programa inseguro, com contratos anuais e sem garantia de
continuidade a partir do ano 2000. O
subprojeto apoiado pelo Programa Piloto para Proteção
das Florestas Tropicais Brasileiras, que durou três anos, com
propostas de disseminação de alternativas agroextrativistas
nas comunidades rurais.
15
ANOS E AGORA CEPASP?
Nunca tantas vozes dos mais variados idiomas, de diferentes países,
com interesses diversos ecoaram para expressarem suas posições
a respeito dos recursos e exploração da Amazônia.
Amazônia que tem papel fundamental e estratégico para a
garantia do equilíbrio do meio ambiente mundial, traduzido através
dos seus recursos hídricos, uma biodiversidade infinita, onde
cogita-se serem encontradas a cura para várias doenças.
A
Amazônia é rica, não só essa riqueza que
tanto tem atraído olhos cobiçosos de além mar,
mas uma riqueza maior que insiste em ser negada pelos arquitetos do
entreguismo do Brasil: o conhecimento, crenças, mitos, valores,
sonhos, referências. Essa destruição é a
mais terrível, a perda da identidade. Foi assim com as civilizações
Maia e Asteca pela colonização espanhola, com a catequese
a que foram submetidos os índios quando do descobrimento, tem
sido assim sido com presença de evangélicos em várias
nações indígenas.
Amazônia
colonizada e explorada ao longo de vários projetos governamentais
equivocados: hidrelétricas, barragens exploração
mineral, monocultura de soja, pecuária onde regra geral as populações
nativas e suas fontes de recursos para a manutenção da
vida foram gravemente alterados, destruídos.
Passados
perto de 500 anos, o balanço das investidas da elite internacional,
nacional e local, ancoradas num governo que insiste em desnacionalizar
tudo que é estratégico para o Brasil, que fecha os olhos,
ouvidos e o bom senso para as demandas dos setores organizados, e escancara
as pernas para as ordens dos países ricos e suas instituições
como o FMI e o Banco Mundial, só pode ser considerado desastroso.
Nenhum
país do mundo que obedeceu às regras impostas pelo FMI
teve seus índices de pobreza regredidos, ao contrário,
só progrediram. É justo na contramão desta lógica
que insiste em editar uma nova colonização dos países
latinos e em desenvolvimento, que o Cepasp conduzirá sua canoa.
Canoa que sempre terá um remo disponível para quem estiver
disposto a colaborar para escrever e construir a história sob
a luz dos interesses dos oprimidos, engrossando o canto por dignidade
e vida plena, num coral que contemple as vozes dos índios, dos
ribeirinhos, dos agricultores familiares, pescadores artesanais, extrativistas,
enfim, dos que conspiram e teimam em reinventar a vida todos os dias.
Diretoria
do Cepasp 